Fronteira

Fronteira, um espetáculo que traz a palco o reality show do momento. O público tem de votar, tomar partido, rever-se, identificar e pontuar. “Sejam todos e todas bem-vindos e bem-vindas ao desafio dos desafios, à Europa Sweet Home!”

Não está a ver os dois lados? Pois não! Nunca vemos os dois lados!

É verdadeiro, real, um “reality show” em que tudo o que acontece de um lado afeta o outro. Ouve-se tudo, mas não se vê quem está do lado de lá. Mostramos-lhe como se faz uma fronteira e, mais importante, como se mantém a distância entre duas caras-metades, duas terras, duas cenas. A verdadeira fronteira é entre quem está dentro e quem está fora, entre os dois concorrentes, entre o que cá está e o que chega. Se só há dois lados como se pode aceitar o “terceiro”?

É como se costuma dizer “Eu, contra meu irmão; meus irmãos e eu, contra os primos; os meus primos e eu, contra os estrangeiros”.

 

Argila: no princípio era o Verbo

Um espaço amplo. Argila no centro.
Os intérpretes olham atentamente para ela.
O que fazer com a argila?
Qualquer toque irá transformar a argila numa qualquer outra coisa que não voltará a recuperar a sua forma inicial.

A argila começa a girar.
O palco é, de repente, uma grande roda de oleiro.
O corpo dos intérpretes, as mãos dele.
A argila gira cada vez com mais velocidade. 

Agora, qualquer tentativa de manipulação, será inevitavelmente uma dança entre o corpo e a matéria.

A matéria não terá uma forma escultórica acabada.
A rotação circular da roda não terá fim.
O movimento dos intérpretes também não.